O fascínio da criança presa no campo de prisioneiros, durante a Segunda Guerra Mundial, não é muito distinto do desejo de James Ballard quando colocado perante os limites da sua Humanidade. Os dois filmes que adaptaram romances de Ballard, O Império do Sol e Crash (há uma longa-metragem realizada por Solveig Nordlund a partir de um fabuloso conto, Aparelho Voador a Baixa Altitude), evidenciam as semelhanças temáticas da fonte onde bebem e as diferenças que se relacionam com o universo de Spielberg e Cronenberg. A infância como período de descoberta e provação de Spielberg e a idade adulta enquanto tempo de transgressão e derrota; os aviões dos Kamikazes japoneses (a violência espreita) que sobrevoam o miúdo (Christian Bale), prodígio da modernidade, são imagem de uma idade de ouro da tecnologia, quando esta serve o Homem e o deslumbra, produto de uma superior inteligência; por outro lado, as viaturas que espelham o desejo de uma transcendência dos limites do corpo, os carros dançando entre si, chocando, em ambiente urbano, representam o fascínio infantil levado a um extremo hiperrealista. A prótese de Rosanna Arquette, objecto fétiche do olhar extremista de Holly Hunter, é uma hipótese de um ser que ultrapassa os limites do humano; a criança que sonha ver as brilhantes máquinas voadoras (a infância será sempre um sonho, ainda que seja na realidade um duro pesadelo) torna-se um cínico descrente, preso de um desejo que perdeu a sua pureza: a passagem para a idade adulta não será muito mais que isto.
21/04/09
19/04/09
18/04/09
À prova de morte
Contrario Steiner - a ver se acordo o Francisco - e afirmo: temos sempre novos começos. Parece que este blogue entrou em pousio. Que assim seja; apenas lhe dou o que ele pede, e nunca me deixou mal.
(Não sei por que razão agora falo com o blogue; talvez seja por, dizem, ser um diário, ou lá o que é)
Foram-se os links, e o ar continua a ser respirável; dá vontade de colar aqui um vídeo:
Boa noite a todas.
15/04/09
14/04/09
10/04/09
03/04/09
Conversa sobre o tempo
Esta espécie de Inverno dos últimos dias acentua a estranheza de, em Fevereiro, ter ido à praia em preparos quase veraneantes - escrevo quase, por receio da bizarria da situação. As alterações climáticas, um dos mitos fundadores do nosso tempo, nem sempre seguem uma linha sem sobressaltos - o aquecimento global é uma realidade entrecortada por uma ou outra frente polar, inundações extemporâneas e muitos dias de frio inusitado. Mas a verdade é que, de ano para ano, admito a chegada do calor mais cedo. Recordo um dia de Março em que me vesti de manga curta e fui passear para os jardins da Gulbenkian, cheios de gente que esperava há muito um pretexto para faltar às aulas. Muitos anos depois, ao enfrentar o dia de hoje, mais quente do que tem estado, talvez seja tempo de aceitar a variabilidade dentro de certos limites, ciclos que se repetem, padrões que mudam ligeiramente mas que evidenciam o número de vezes que já aconteceram.
A banalidade da conversa sobre o tempo esmorece o meu entusiamo. O espírito precisa de muito pouco para ganhar cores, elevar-se; e chega esta razão para falar disso. Ou então sair à rua e aproveitar a irreversibilidade do ritmo das estações - sem qualquer flutuação ou dela dependendo; não importa.
31/03/09
29/03/09
28/03/09
Grande público e outras invenções
O que é um blockbuster? De acordo com os dados que temos, fornecidos pelos distribuidores nacionais, nos últimos anos tem-se vindo a assistir a um declínio no número de espectadores que vai ao cinema. Sempre que sai uma notícia destas nos jornais, são apontados vários factores, entre eles o boom do DVD, pirata e legítimo. Contudo, poucos cinemas fecharam em Portugal (com a excepção de projectos megalómanos como as salas do Freeport de Alcochete) e os multiplexes pipoqueiros multiplicam-me, acompanhando a abertura de centros comerciais, ameaçando saturar um mercado naturalmente limitado - e com a crise, a esperada crise, a implosão do hiperconsumo, iremos ver muito elefante branco, tristes fantasmas do capitalismo, nos anos que virão.
Mas que cinema se verá por cá? O filme mais visto na semana que passou em Portugal foi Gran Torino. Três vezes mais espectadores do que a segunda estreia da semana, Hotel para Cães, que eu não sei nem quero saber o que seja. Um país de cinéfilos? Ou será a obra de Clint Eastwood acessível ao grande público? Inclino-me para a segunda hipótese,
e acredito que este filme se torne um clássico para todas as épocas, ao estilo de Casablanca ou de As Pontes de Madison County. A surpresa agradável confirma uma ideia antiga: se for suficientemente divulgado, se estrear em salas suficientes, um bom filme será sempre visto por muita gente. O Segredo de um Cuscuz, outro grande filme popular, poderia ter sido também um exemplo, caso tivesse estreado em mais salas - ainda assim, manteve-se em cartaz durante semanas a fio. E Aquele Querido Mês de Agosto é mais um caso: salvo erro, foi visto por quarenta mil espectadores, e não sei se chegou a estar em meia-dúzia de salas. Como teria sido, se tivesse estado acessível a todos, como acontece com a obra de Eastwood.
e acredito que este filme se torne um clássico para todas as épocas, ao estilo de Casablanca ou de As Pontes de Madison County. A surpresa agradável confirma uma ideia antiga: se for suficientemente divulgado, se estrear em salas suficientes, um bom filme será sempre visto por muita gente. O Segredo de um Cuscuz, outro grande filme popular, poderia ter sido também um exemplo, caso tivesse estreado em mais salas - ainda assim, manteve-se em cartaz durante semanas a fio. E Aquele Querido Mês de Agosto é mais um caso: salvo erro, foi visto por quarenta mil espectadores, e não sei se chegou a estar em meia-dúzia de salas. Como teria sido, se tivesse estado acessível a todos, como acontece com a obra de Eastwood.
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