03/04/09

Conversa sobre o tempo

Esta espécie de Inverno dos últimos dias acentua a estranheza de, em Fevereiro, ter ido à praia em preparos quase veraneantes - escrevo quase, por receio da bizarria da situação. As alterações climáticas, um dos mitos fundadores do nosso tempo, nem sempre seguem uma linha sem sobressaltos - o aquecimento global é uma realidade entrecortada por uma ou outra frente polar, inundações extemporâneas e muitos dias de frio inusitado. Mas a verdade é que, de ano para ano, admito a chegada do calor mais cedo. Recordo um dia de Março em que me vesti de manga curta e fui passear para os jardins da Gulbenkian, cheios de gente que esperava há muito um pretexto para faltar às aulas. Muitos anos depois, ao enfrentar o dia de hoje, mais quente do que tem estado, talvez seja tempo de aceitar a variabilidade dentro de certos limites, ciclos que se repetem, padrões que mudam ligeiramente mas que evidenciam o número de vezes que já aconteceram.
A banalidade da conversa sobre o tempo esmorece o meu entusiamo. O espírito precisa de muito pouco para ganhar cores, elevar-se; e chega esta razão para falar disso. Ou então sair à rua e aproveitar a irreversibilidade do ritmo das estações - sem qualquer flutuação ou dela dependendo; não importa.

28/03/09

Grande público e outras invenções

O que é um blockbuster? De acordo com os dados que temos, fornecidos pelos distribuidores nacionais, nos últimos anos tem-se vindo a assistir a um declínio no número de espectadores que vai ao cinema. Sempre que sai uma notícia destas nos jornais, são apontados vários factores, entre eles o boom do DVD, pirata e legítimo. Contudo, poucos cinemas fecharam em Portugal (com a excepção de projectos megalómanos como as salas do Freeport de Alcochete) e os multiplexes pipoqueiros multiplicam-me, acompanhando a abertura de centros comerciais, ameaçando saturar um mercado naturalmente limitado - e com a crise, a esperada crise, a implosão do hiperconsumo, iremos ver muito elefante branco, tristes fantasmas do capitalismo, nos anos que virão.

Mas que cinema se verá por cá? O filme mais visto na semana que passou em Portugal foi Gran Torino. Três vezes mais espectadores do que a segunda estreia da semana, Hotel para Cães, que eu não sei nem quero saber o que seja. Um país de cinéfilos? Ou será a obra de Clint Eastwood acessível ao grande público? Inclino-me para a segunda hipótese,Itálico e acredito que este filme se torne um clássico para todas as épocas, ao estilo de Casablanca ou de As Pontes de Madison County. A surpresa agradável confirma uma ideia antiga: se for suficientemente divulgado, se estrear em salas suficientes, um bom filme será sempre visto por muita gente. O Segredo de um Cuscuz, outro grande filme popular, poderia ter sido também um exemplo, caso tivesse estreado em mais salas - ainda assim, manteve-se em cartaz durante semanas a fio. E Aquele Querido Mês de Agosto é mais um caso: salvo erro, foi visto por quarenta mil espectadores, e não sei se chegou a estar em meia-dúzia de salas. Como teria sido, se tivesse estado acessível a todos, como acontece com a obra de Eastwood.

24/03/09

Seixos

Embora nos Céus Deus insista
E designe a lei do tempo,
A pintada e a candeliça sabem
Que os ventos sopram como lhes aprouver
Na tempestade ou na tormenta.

Herman Melville, Seixos (I), em Poemas, ed. Assírio & Alvim, trad. Mário Avelar


22/03/09

Uma frase, apenas

O Manuel A. Domingos, um excelente poeta, passou-me uma corrente a que não posso escapar, principalmente porque não quero, mas também porque sim. Não gosto da frase: "aquelas pequenas gotas de alma que ficam connosco, mesmo quando nos esquecemos delas". Mas a ideia agrada-me. Então, o que temos? O poeta a que mais regresso, por várias razões, entre elas a mais cruel: a sua perfeição inatingível. Luís Miguel Nava:

Crawl

Às vezes, entranhando-me num espelho, consigo dar nele duas ou três braçadas sucessivas.

Não passo a ninguém esta corrente, porque quem se preocupa com assuntos de "alma" já tem muito em mãos para se ocupar.