25/03/09
24/03/09
Seixos
Embora nos Céus Deus insista
E designe a lei do tempo,
A pintada e a candeliça sabem
Que os ventos sopram como lhes aprouver
Na tempestade ou na tormenta.
Herman Melville, Seixos (I), em Poemas, ed. Assírio & Alvim, trad. Mário Avelar
22/03/09
Uma frase, apenas
O Manuel A. Domingos, um excelente poeta, passou-me uma corrente a que não posso escapar, principalmente porque não quero, mas também porque sim. Não gosto da frase: "aquelas pequenas gotas de alma que ficam connosco, mesmo quando nos esquecemos delas". Mas a ideia agrada-me. Então, o que temos? O poeta a que mais regresso, por várias razões, entre elas a mais cruel: a sua perfeição inatingível. Luís Miguel Nava:
Crawl
Às vezes, entranhando-me num espelho, consigo dar nele duas ou três braçadas sucessivas.
Não passo a ninguém esta corrente, porque quem se preocupa com assuntos de "alma" já tem muito em mãos para se ocupar.
21/03/09
Gran Torino

Manoel de Oliveira será dos poucos realizadores velhos (não é preciso ter medo da palavra) que não dedicaram grande parte da sua obra mais recente ao crepúsculo da vida - talvez a excepção sejam Vou para Casa e Belle Toujours, mas ainda assim sem perder a sua característica ironia que acaba por desarmar muita da artilharia existencial que o tema pressupõe.
O outro grande realizador no activo é, já se sabe, Clint Eastwood. E este não se tem recusado ao papel que parece estar reservado a qualquer cineasta, a partir de uma determinada fase - uma certa cedência ao sentimentalismo, à meditação existencial, preparar o caminho para o esquecimento. Apesar destas evidências, quando deparamos com Eastwood no caixão - mas não vemos, não existe um grande plano - sentimos o frio do golpe no corpo todo. Ele está ali, depois do sacrifício - os braços abertos do plano culminante não deixam de ser crísticos -, e sabemos que a realidade não termina depois do genérico. Gran Torino transcende a forma, o espaço fílmico; é uma poderosa e comovida reflexão sobre uma vida no cinema: no corpo de Walt Kowalski encontramos todos os Eastwoods anteriores; e isto inclui a persona Eastwood, aquilo que conhecemos dele, a personagem real que nos habituámos a admirar (no meu caso, desde Dirty Harry).
E o genérico final, cuja resplandecência e significado são de uma intensidade estarrecedora, esclarece o enigma, estabelece uma ponte entre o filme que termina e a vida onde ele se inscreve. Repetindo Vasco Câmara (e a frase vai para o cabeçalho do blogue por tempo indeterminado, por sugestão involuntária de Ricardo Gross), vou espalhar ao vento: Gran Torino é uma obra-prima. Derrotou-me e eu estou feliz por isso.
18/03/09
15/03/09
Alternar a corrente
But because solitude dwells proximally and for the most part in the deficient or at least Indifferent modes (in the indifference of passing one another by), the kind of knowing-oneself which is essential and closest, demands that one become acquainted with oneself.
A quinta frase completa de Being and Time, de Martin Heidegger (ed. Blackwell, 2000), mas em vez de ter pegado neste poderia ter procurado a quinta frase do outro livro que deveria estar a ler, a biografia do Tom Cruise que o Pedro Mexia aconselhou na última Ler ou aquele da semana para mudar a vida, que para ser livro basta ter páginas e coisas lá escritas, e que a filosofia sirva para auto-ajuda não é de modo algum um pormenor despiciendo, e como de qualquer maneira as correntes são para serem prosseguidas, a minha resposta ao desafio do Pedro Vieira foi dada. Ah, a frase tem uma nota de rodapé indexada, e se receber mais de 10 mails a pedir que a publique, assim o farei, e isso será um ganho evidente em entendimento da mesma em geral, e da vida em particular. Quanto a continuações, ainda estou à espera que o Rogério Casanova continue uma corrente que lhe passei (como uma doença) há mais que muito tempo, portanto cá vai outra para ele não continuar. O Lourenço terá já respondido a isto? O Pedro Duarte Bento também, e o Ouriquense, que se tem dedicado a trair o espírito do blogue. E gostava de saber o que José Saramago anda a ler agora; pode ser?
[Sérgio Lavos]
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