05/12/08

Preferia não

A dor que não é física é um sentimento estético; sofrer, sofrer a bom sofrer a vida, é uma pose que disfarça ou a perplexidade ou a incapacidade de aceitar a beleza que ultrapassa a banalidade diária, a sombra dos inevitáveis espinhos que surgirão no caminho. Saber de tudo isto e não ir a jogo é o desastre completo; a ética da impossibilidade prática.

[Sérgio Lavos]

04/12/08

Quem fica

No fim de contas, não tem interesse nenhum falar dos que não sobreviveram; a sobrevivência em geral é sobrevalorizada, mas é o particular que me interessa: um Homem que abdica não deve ser chorado pelos que resistem - e quem sabe se apenas ele poderá chorar por quem fica.

[Sérgio Lavos]

Heaven beside you



[Sérgio Lavos]

28/11/08

BSO



Depois da música inicial, as imagens fundem-se no som da natureza envolvente, e Blake torna-se parte dos lugares por onde anda. Uma mancha na floresta, em movimento, silenciosa, algo que está a deixar de ser humano. 
Num filme que é suposto retratar os últimos dias de Kurt Cobain, a música que ouvimos é escassa. Gus van Sant prefere que os ruídos naturais se evidenciem - o som de pássaros por entre as árvores, o crepitar das folhas secas sob os pés, a água da cascata a correr, o baque do corpo na corrente, a fogueira ardendo no escuro, o grito primitivo do músico, o comboio na distância. A ilusão é perfeita: o som não é captado de forma directa, mas inserido na pós-produção, resultando em sequências que podem ser apenas ouvidas, representação bastante aproximada da ideia de uma realidade; e panteísta, como sucede em Gerry, a longa caminhada dos dois Gerrys para a morte, os passos sobre a areia multiplicando-se sobre si próprios.
Como se a morte se insinuasse através de um desejo primordial de regresso à Natureza. Longe da multidão enlouquecedora. Um Walden pós-moderno.

[Sérgio Lavos]

Bombaim

Conheço a cidade através das palavras de Salman Rushdie, a cidade de outros tempos, viva, mais viva em Filhos da Meia-Noite do que na realidade seria. Pelo menos, até ler este texto da Ana de Amsterdam, na primeira pessoa. 
Será possível alguma vez sentirmos o sofrimento dos outros como sentimos o nosso?

[Sérgio Lavos]

22/11/08

Gonçalo M. Tavares


Gonçalo M. Tavares publicou, em seis anos, 23 livros. Será necessário algum rigor para escrever tal número. Atenção, não foram 38, como escrevi (antes de verificar no Público o número correcto), nem 36, como julgo ter afirmado em conversa com alguém (já não me lembro quem).

Tudo o que tem vindo a lume, quase tudo, foi escrito durante um longo período de tempo, e depois Gonçalo começou a publicar. Quando começou a publicar, deixou de escrever. Até começar a publicar, escreveu. Todos os dias, já o disse em entrevistas, de manhã, nos cadernos - pretos ou não. Cada texto publicado vai para uma colecção, organizada de acordo com o caderno em que foi escrito.

Dos primeiros livros publicados, avulta O Senhor Valéry, o primeiro da série dos senhores. Esta série inventa, mais do que personagens vagamente inspiradas em escritores, um espaço para as colocar, um bairro. Neste bairro elas existem, mas raramente se cruzam. Conversam, encontram outros habitantes das vizinhanças, mas principalmente surpreendem-se com o bairro onde vivem. O carácter infantil das histórias dos senhores passa sobretudo pelo modo lúdico com que são encarados os pormenores existenciais, as dificuldades do mundo. Cada situação é enfrentada com a seriedade de um adulto e resolvida com a displicência de uma criança. A infância é o tempo em que a maior parte dos problemas que nos interessam é ultrapassada: como contornar as dificuldades que os outros nos colocam, como aprender a confiar neles, e como contar com isto para que o mundo se molde à nossa vontade. Crescer é como construir um bairro: alicerçar as casas, erguer as paredes, pôr gente a viver lá dentro, construir as ruas que levam a outras casas, olhar o quadro de fora, como um arquitecto divino.

O método de Gonçalo M. Tavares é frio, consegue descrever o quadro de maneira grandiosa. À puerilidade do bairro dos senhores é acrescentada a tetralogia do reino (A Máquina de Joseph Walser, Um Homem: Klaus Klump, Jerusalém, Aprender a Rezar na era da Técnica). Neste reino, esquecemos os problemas de infância, os jogos que nos serviam para resolver esses problemas. As personagens da série são racionais, prodígios de raciocínio, frias máquinas obedecendo a frios desejos. Neste mundo desolado, a violência germina facilmente. Se no bairro dos senhores a desordem ameaça a cada página, no Reino o mundo é perigoso. E o perigo não vem do exterior, mas do interior; a violência nasce da razão. Todos os grandes ditadores da História fundaram os seus reinos de terror na técnica, num método. Não há qualquer sugestão de irracionalidade no acto de destruir outro homem; a intenção é puramente da ordem do pensamento concreto, sem vestígios de imaginação, no sentido em que, para aceitarmos o outro, precisamos de imaginar o que ele é, o que sente.

A permanente tensão da série o Reino transporta-nos da infância para a idade adulta: o tempo da entropia progressiva, da ameaça de destruição iminente. A violência como motor da evolução humana.

(Texto publicado em tempos no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

Ensaio Sobre a Cegueira

O que a adaptação de Fernando Meirelles de Ensaio Sobre a Cegueira deixa de fora é a visão comunista que Saramago impõe ao romance. Simplificar, simplificar, até chegarmos a território neutro, no qual não se perceba se a história dos cegos é uma parábola que descreve a natureza humana ou uma utopia libertadora, típica de uma certa visão de esquerda que ainda não foi extinta. 
O grupo de cegos que sobrevive é, no romance, uma comuna que aceita docilmente a autoridade de um líder (messiânico), que, ironicamente, é conduzido por alguém que tem uma qualidade que a torna superior aos que seguem: a mulher que vê. Se o moralismo de Saramago pretendia denunciar a maldade inata do Homem, personalizada no déspota da camarata do lado e do cego antes da cegueira que o conduz, acaba por não conseguir. Isto seria uma possível leitura. Mas julgo que a verdadeira, apesar de entrar por caminhos conspirativos, é esta: ao fascismo violento do grupo liderado pelo vilão do livro opõe-se o sentido comunitário do grupo da mulher que vê. A resposta que resta é: será ingénua a "cegueira" de Saramago, ao não perceber que é tão totalitária a liderança subterrânea da mulher que vê como o maquiavelismo do cego que manipula o déspota? A bondade da comuna, romântica segundo o olhar de Meirelles, é o exemplo mais evidente da ideologia moralista do romance de Saramago. A imagem da coluna de cegos a caminhar pela cidade, fila ordeira, líder vidente conduzindo os restantes numa clara hierarquia, é um delírio que Orwell não desdenharia; a diferença é que, se este tratasse o tema, seria sempre com o objectivo claro de denúncia. Saramago, como sabemos, nunca o faria - e não fez. E Meirelles, terá percebido a complexidade da manipulação saramaguiana?

[Sérgio Lavos]