22/11/08

Ensaio Sobre a Cegueira

O que a adaptação de Fernando Meirelles de Ensaio Sobre a Cegueira deixa de fora é a visão comunista que Saramago impõe ao romance. Simplificar, simplificar, até chegarmos a território neutro, no qual não se perceba se a história dos cegos é uma parábola que descreve a natureza humana ou uma utopia libertadora, típica de uma certa visão de esquerda que ainda não foi extinta. 
O grupo de cegos que sobrevive é, no romance, uma comuna que aceita docilmente a autoridade de um líder (messiânico), que, ironicamente, é conduzido por alguém que tem uma qualidade que a torna superior aos que seguem: a mulher que vê. Se o moralismo de Saramago pretendia denunciar a maldade inata do Homem, personalizada no déspota da camarata do lado e do cego antes da cegueira que o conduz, acaba por não conseguir. Isto seria uma possível leitura. Mas julgo que a verdadeira, apesar de entrar por caminhos conspirativos, é esta: ao fascismo violento do grupo liderado pelo vilão do livro opõe-se o sentido comunitário do grupo da mulher que vê. A resposta que resta é: será ingénua a "cegueira" de Saramago, ao não perceber que é tão totalitária a liderança subterrânea da mulher que vê como o maquiavelismo do cego que manipula o déspota? A bondade da comuna, romântica segundo o olhar de Meirelles, é o exemplo mais evidente da ideologia moralista do romance de Saramago. A imagem da coluna de cegos a caminhar pela cidade, fila ordeira, líder vidente conduzindo os restantes numa clara hierarquia, é um delírio que Orwell não desdenharia; a diferença é que, se este tratasse o tema, seria sempre com o objectivo claro de denúncia. Saramago, como sabemos, nunca o faria - e não fez. E Meirelles, terá percebido a complexidade da manipulação saramaguiana?

[Sérgio Lavos]

16/11/08

Clube de Combate


Para além do tema do artifício da identidade, central no filme, Clube de Combate, de David Fincher, é visionário. Dez anos depois, as torres corporativas foram destruídas por terroristas que desprezam o modo de vida capitalista, o vazio em que este se funda, e o coração do mundo financeiro sofreu um abalo que, esperamos, irá mudar o mundo como o conhecemos. A segunda parte da operação de destruição do modelo ocidental prossegue neste momento, em que eu escrevo, e o mais estranho é quase ninguém se aperceber disso. Assim funciona a História: as grandes mudanças são imperceptíveis para quem as vive. Aquilo que julgámos ser o momento essencial dos nossos tempos - o atentado às Torres Gémeas - foi apenas um prelúdio para algo maior. Este tipo de linguagem, hiperbólica, disparando em todas as direcções, acaba por acertar em qualquer coisa. É a linguagem de Tyler Durden, o terrorista do quotidiano que encarna os desejos mais profundos dos descontentes da sociedade de consumo: destruir os alicerces que a suportam. Não confundir estes descontentes com os marginalizados da sociedade; estes perseguem, e hão-de perseguir as promessas que o capitalismo oferece. Os descontentes vivem na sombra da riqueza gerada pela máquina global, alimentam-se dela e cospem no prato que lhes dá comida. O descontente do capitalismo é um funcionário burocrata, cansado dos milhares que ganha, da casa decorada no Ikea e do bem-estar perpétuo, do tédio quotidiano. O descontente é um produto secundário do capitalismo, inevitável. Slavoj Zizek fala da Checoslováquia dos anos 70 como o mundo ideal, aquele que consegue o equilíbrio perfeito entre  necessidade e desejo: necessidades materiais satisfeitas e desejo de liberdade por satisfazer. A sociedade do consumo falha neste ponto; é essa a principal ideia em Clube de Combate.
Tyler Durden rejubilaria com o colapso do sistema financeiro mundial. Mas quem verdadeiramente irá sofrer com isto preferia que a profecia não se tivesse concretizado. 

[Sérgio Lavos]

15/11/08

The child/Alex Gopher

 te

A aleatória relação entre significado e significante demonstrada em forma de canção electro-pop: eis o objectivo deste video realizado por H5, a ilustrar uma música de Alex Gopher. Um sample soul e umas batidas lounge, o som está lá, mas o que interessa é o movimento das palavras, o ziguezague das coisas pelas ruas de Nova Iorque, os sons de gente a falar que atribuem consistência à ilusão. Que ligações se estabelecem no nosso cérebro, permitindo que a cidade seja real apesar de nenhuma representação directa do mundo se dar? Serão os objectos símbolos, como o são as palavras, e antes delas, os sons que as compõem? Nomear as coisas é aquilo que lhes permite ter substância. O reconhecimento do mundo não é natural, a linguagem não é uma extensão do mundo; é antes uma continuição da inteligência humana, um atributo que é passado de ser para ser, o código da acesso à consciência humana.
Ou será que este video é de uma simplicidade absoluta e não coloca estas questões que artificializam o que é fácil de entender, instintivo? Aquilo que até uma criança entende?

[Sérgio Lavos]

Movimento (2)

[Sérgio Lavos]

14/11/08

Colóquio/Letras


Tenho alguns livros na estante que comprei apenas em função da sua utilidade estética; e escrever utilidade estética não é apenas um paradoxo, é a realidade das coisas. A beleza não é apenas fundamental, como cantava o outro, é necessária para que um objecto tenha uma existência imprescindível. E quem diz objecto, pensa em gente, claro.
Esses livros, essenciais em qualquer biblioteca, podem ou não ter mundo dentro deles - se forem vazios, salva-se sempre a pureza das linhas e das cores. A perfeição da composição gráfica; aqueles livros em que dá vontade de pegar apenas para olhar para o desenho das letras na página (acontece-me neste momento com os livros da Sextante, por exemplo, saídos do atelier de Henrique Cayate e enriquecidos com as letras de Mário Feliciano, o inventor da elegância tipográfica). A história é bamba, fraquinha, o estilo é raso e enjeitado; não interessa, a mancha de tinta preta no papel branco é enlevo suficiente. A beleza é essencial.
E a capa, o embrulho do todo, o que captura o leitor na livraria. No oceano de ruído, cromocaótico, dos escaparates das novidades, espreita o próximo livro, e é sempre a sua cara que primeiro nos convence. O rosto de um livro é a sua capa, e é por ela que ele é sempre julgado, como diz a frase inglesa (ou o verso dos Prefab Sprout).
Um destes exemplos, uma revista Colóquio/Letras (Janeiro/Junho de 1998) que comprei não porque, naquele caso, me interessasse especialmente o conteúdo, mas porque não resisti ao apelo do conjunto, à beleza simples do objecto. Tenho outros números, mais ou menos conseguidos graficamente, mas sempre exigentes ao nível do texto, e não tenho dúvidas de que é esta a única revista portuguesa de literatura que consegue combinar o rigor académico com o apelo a um público não-especialista (julgo que a razão disto também passa pelo cuidado na edição). Parece que querem afastar Joana Morais Varela, a principal responsável pela excelência do projecto, da direcção da revista, por razões mais ou menos ínvias (se não mesmo ímpias). Esperemos que não. Fazer bem é coisa tão rara em Portugal que seria (também neste caso) lamentável se isso acontecesse.  

[Sérgio Lavos]

13/11/08

Novas tecnologias


Através do José Mário Silva, o futuro, a loja das Quasi. Apetitosas, no mínimo, as imagens. Livraria? Nave espacial? O que irá nascer naquele espaço?

[Sérgio Lavos]

09/11/08

Dióspiros

[Sérgio Lavos]

O desaparecido

Li, e aconselho a quem me lê que o faça também, os dois textos do regresso de João Ventura ao O Que Cai dos Dias, dois posts certeiros sobre Herberto Helder, e depois da poeira assente vale a pena voltar ao tema. Mas por outra porta, a que António Guerreiro me entreabriu hoje, no Expresso - o texto sobre a biografia de Kafka que está a ser publicada neste momento na Alemanha, três volumes dos quais falta apenas sair o dedicado aos anos de infância e adolescência do escritor. 
O que existe de comum entre estes dois autores? A vontade de desaparecimento, diluição na banalidade dos dias. Kafka, escritor desconhecido na sua época, afirmou ser ele a própria literatura, mas o interesse de escrever uma biografia monumental sobre um homem com uma vida lisa, sem peripécias ou planaltos, que contudo deixou uma vasta bibliografia íntima - diário, cartas, etc. -, reside precisamente no enigma do confronto entre a sua afirmação pública e a produção artística privada. O que levou aquele homem a escrever, a "tornar-se literatura"? A dissecção minuciosa dos dias, das relações, do movimento, seria um bom ponto de partida para encontrar uma resposta, mas dificilmente será um ponto de chegada. Os romances inacabados de Kafka eram iguais à sua vida, ele afirmou-o no diário, e esta construção de uma personagem que se ausenta, que tende para o silêncio, faz parte do discurso de afirmação enquanto escritor que ele procurava.
Herberto Helder, na sua procura do poema contínuo, sem princípio nem fim à vista, na sua identificação com essa obra em passagem pela matéria onde se inscreve, evidente na continuidade entre autor e título da obra (Herberto Helder ou o Poema Contínuo, numa anterior edição da obra poética) - como bem notou António Guerreiro na sua recensão a A Faca Não Corta o Fogo -, é a versão possível desta vontade de imanência do criador. Possível porque a sua consagração funciona como obstáculo à execução do objectivo - ser Herberto Helder é incompatível com a sua condição de poeta maior do século XX, e imaginamos que as duas possibilidades apenas se podem excluir mutuamente. A sociedade do imediatismo e do mediatismo fabrica personagens que não passam de figuras vazias povoando as narrativas do leitor, essa categoria volúvel; o leitor, mais do que completar o circuito de criação de uma obra, corrompe a obra que recebe, transformando-a em algo dissemelhante daquilo que era a intenção do autor. Kafka, personagem refugiada na sua própria obra, não sofreu este destino - o seu desaparecimento foi completo, e talvez tenha apenas fraquejado no fim, ao não condenar ao fogo os seus escritos.
A opacidade de Herberto não chega a ser um perfeito truque de ilusionista; ele é um desaparecido em eclipse, que julgamos ver quando olhamos para o lado. A obra continua.

[Sérgio Lavos]

08/11/08

Sapatos velhos

Não sei que traços da minha personalidade revela a acumulação de objectos inúteis em casa. Jornais antigos, bilhetes de cinema e catálogos de exposições, bilhetes de comboio, escrevinhados, sacos que não saem do mesmo sítio há anos, sapatos velhos. Sapatos velhos? Sapatos velhos, é verdade, calçado que uso há décadas, ténis, botas, sapatos. Ainda se molda, cada peça, à forma do meu corpo - será esta a razão porque não me desfiz, nem quero me desfazer deles. Porque desfazer é o contrário de fazer, e durante todo o tempo que os sapatos velhos andaram carregando os meus pés eu me fui fazendo. O movimento é espacial e temporal - transporta-me de um lado para o outro e leva-me a um momento no futuro - a proposição usada, "a", é a mesma para espaço e tempo, e pela gramática comprovamos teorias da Física. Se a construção daquilo a que chamamos "eu" tem que ver com as relações com a matéria que nos rodeia - a casa, os livros, os veículos de transporte, as cidades e aldeias, a gente -, essa construção completa-se com a comparação entre aquilo que fomos e aquilo que somos, agora. Os sapatos velhos têm inscrito neles a altura exacta em que os comprei, a circunstância certa em que os usei. Por onde andaram, a terra que pisaram - umas botas que subiram a montes, uns ténis que levei a concertos de bandas que raramente, agora, ouço - por quem foram vistos. Mais do que a roupa, mas a roupa é outro problema - variamos mais, não nos ligamos tanto às peças. A relação monogâmica que estabelecemos com os sapatos velhos é aquilo que nos vai definindo. Atirar fora esses sapatos é como terminar com alguém, cortar com uma porção concreta de passado. E pensar que possam tais objectos inanimados serem desvalorizados, ao ponto de ser ridículo usá-los como tema de escrita - aquilo que lhes permite sobreviver para além daquele dia em que são atirados, sem dó nem pena, ao caixote de lixo, e com eles a vida que se foi acumulando. Como lama seca.

[Sérgio Lavos]