24/03/18

O mal

Olá de novo,
diz o sacripanta, o infernal, o odioso tirano
desse tempo.
Olá de novo,
olho para ti e do fundo desse temporal
nasce uma acalmia tal
que não podes fazer nada senão sucumbir,
cair como essas folhas mortas pousadas destroçadas sobre a casa.
Olho para ti do fundo desse lago
e o teu rosto é um espesso logro
do qual não vais recuperar, sabes,
um tecido barato, fazenda podre,
espécie de lama desenformada
de onde não despontará nunca nunca vida.

A carta que enviaste está no lixo
e a breve trecho os teus passos
não serão mais do que um eco de uma sombra.
Olá de novo, vem a meus braços,
alegre idiota que pensa saber de cor
a melodia do meu maldito canto.
Não sabes, alegre idiota, e não conheces
a esquina onde te vou emboscar.
Que essa dança que te ofereço não é mais
material do que o último sopro do temporal.

E lá fora tudo se cala, tudo se cose, tudo é mortalha, falha, o mal.

06/02/14

365 forte

Este blogue não será o mais adequado a escrever sobre a actualidade. Ainda pensei continuar por aqui o que fazia no Arrastão, mas faz mais sentido fazê-lo num blogue colectivo. Por esse motivo, aceitei o convite para escrever para o 365 forte. Por aqui, a vida continuará, mas sem política.

31/01/14

"Vergados à sua vontade"


Ao longo da História, o prémio de maior vilão tem sido firmemente disputado entre a realidade e a ficção, e não se pode dizer que haja um vencedor previsível ou definitivo. O mal real, palpável, traduzido em actos hediondos, concorre com o mal ficcional, criado a partir de palavras ou do desempenho de actores.

Mas os vilões da ficção levam vantagem neste confronto. Conhecemos as motivações, convivemos com eles, chegamos a sentir as suas dores, as suas razões, as suas penas. A mestria do criador permite que muitas vezes sintamos simpatia por parricidas, assassinos em massa ou seriais. O anti-herói, uma das mais perversas categorias criadas por escritores - e que o cinema aproveitou, enriquecendo as palavras com inesquecíveis imagens -, colocou-nos num campo desconfortável: o da relatividade moral. Ao compreendermos as intenções de um assassino, ao vivermos com ele o desconforto, ao encontrarmos motivos para os seus actos hediondos, desistimos de parte da nossa humanidade? Talvez não. Porque ao confrontarmo-nos com o lado mais negro da alma humana - o vilão é sempre uma extensão da psique, uma emancipação do ego sobre os constrangimentos das regras de convívio social -, exorcizamos a violência gerada pelas agressões do quotidiano. Aceitamos os impulsos homicidas de Dexter porque há sempre uma extensão de nós que compreende o fascismo da violência que combate a violência. Entendemos a deriva niilista de Walter White porque vivemos as nossas vidas recolhidos na mesma placidez doméstica castradora de que ele tenta libertar-se ao longo da série.

Os escritores moldam as suas personagens como barro, mas moldam também os corações e o espírito dos seus leitores. Ao escolherem vilões como personagens principais, sabem que estão a conduzir o leitor para um jogo perverso. Quem ama uma história ama também quem a protagoniza. Mesmo quando no fim o vilão acaba por ser derrotado. Estamos do lado de quem, de Iago ou de Othelo? 

Mas a realidade é outra coisa. Mantém-nos à distância, impossibilitados de compreender actos extremos. O assassino em massa que, enfiado dentro de uma caixa de vidro, clama pela normalidade do que fez, é um estranho. Em vão lemos as notícias de jornal procurando saber as razões pelas quais alguém decidiu fazer o que fez. Conhecemos as confissões, as cartas escritas, os livros que relatam as atrocidades, mas haverá sempre uma zona de sombra a que não acederemos. O impulso homicida, o sadismo, parecem estar apenas a um palmo de distância, mas são inacessíveis, existem para lá da barreira de vidro. Por isso, não se compreende a defesa ensaiada por este advogado. Defensor de um dos cúmplices de uma mulher que matou três pessoas e tentou matar mais duas, decidiu associar o carácter da assassina, Joanna Dennehy, ao dos vilões do teatro shakespeareano. Afirma que o seu maquiavelismo e a capacidade de manipular quem a rodeava levaram a que o cliente que ele defende a tenha ajudado a cometer os crimes de que é acusada - como se o livre arbítrio se tivesse ausentado das decisões tomadas pelo cúmplice. Encontrar na literatura a defesa para a violência da realidade é arriscado, não lembraria a ninguém - ou lembraria apenas a um advogado, essa figura de moralidade esquiva também retratada com especial cuidado por muita ficção. Contudo, desconfio que os juízes não embarcarão na conversa do advogado. Olhamos para a fotografia da serial killer e encontramos ali a tal opacidade impenetrável, o limite que não queremos ultrapassar. Que diferença em relação aos vilões literários, figuras de apelo irresistível, companheiros de muitas horas bem passadas. A realidade é demasiado real para ser suportável.

30/01/14

Exílio

I'm not of those who left their country
For wolves to tear it limb from limb.
Their flattery does not touch me.
I will not give my songs to them.

Yet I can take the exile's part,
I pity all among the dead.
Wanderer, your path is dark,
Wormwood is the stranger's bread.

But here in the flames, the stench,
The murk, where what remains
Of youth is dying, we don't flinch
As the blows strike us, again and again.

And we know there'll be a reckoning,
An account for every hour... There's
Nobody simpler than us, or with
More pride, or fewer tears.


Um poema de Anna Akhmatova sobre os que ficaram, encontrado n'O Melhor Amigo.

29/01/14

O duelo


Rússia, pátria de Dostoievsky e de Gogol, a nação dos funcionários irascíveis e das paixões exacerbadas - pelo frio e pelo álcool. O carácter sanguíneo da alma russa - não posso falar com certeza sobre isso, mas acredito no que os escritores me vão dizendo - é um dos traços distintivos da literatura produzida, assim como da sua história. Raskolnikov, levado a um extremo de violência por necessidade, ou Ivan, o Terrível, o tirano retratado por Eiseinstein no filme homónimo, partilham características únicas. 

Depois de há uns meses ter sido notícia uma discussão sobre Kant que acabou com um disparo de pistola, hoje voltamos a ter mais uma prova da singularidade da alma russa. Dois homens envolveram-se num combate de ideias que acabou por ganhar uma fisicalidade inesperada, tendo tudo terminado na morte de um deles, à facada. Podemos lamentar o desfecho trágico da peleja, mas certamente temos de admirar que tudo tenha começado por causa da literatura. O eterno combate entre poesia e prosa teve o seu corolário lógico numa casa em Irbit, nos Urais, onde um convidado, antigo professor de literatura, não conteve a paixão na defesa da sua dama, a poesia, e assassinou o seu anfitrião, fervoroso defensor da prosa. Certamente que o álcool - se tudo tiver corrido de acordo com o esperado, terá sido vodka - e o frio extremo daquela região terão contribuído para tão funesto fim, mas a verdade é que a essência da discussão é tão original e irresolúvel que, de certo modo, acaba por ser natural o extremismo das duas posições. Vejamos: quem, na realidade, poderá preferir Tolstoi a Pushkin (que, recorde-se, morreu ao vigésimo nono duelo em que esteve envolvido, imitando Lenski, personagem da sua obra mais conhecida, Eugene Onegin), ou Tcheckov a Mandelstam? Será Dostoievski o escritor que melhor exprime as angústias da existência ou Tsvetaeva consegue ir mais longe na representação de todas as particularidades da condição humana? Será a poesia de Boris Pasternak superior à sua prosa? E Nabokov, o russo que escrevia em inglês, emigrante na América, representará melhor a literatura russa do século XX do que Anna Akhmatova, que lutou contra o regime estalinista sem nunca ter abandonado o país?

Na aparência, estes combates literários parecem fáceis de dirimir: a escolha entre poesia e prosa é absurda, pela sua natureza e pela sua forma. Contudo, não devemos menosprezar as contradições e o fogo da alma humana. No fim de contas, quem poderá afirmar com convicção, além de qualquer dúvida, que a literatura não é mais importante do que a vida?

28/01/14

Pete Seeger (1919-2014)


Conheço mal a história e a música de Pete Seeger. E estranhamente o que me trouxe a ele é uma daquelas lendas apócrifas que polvilham a história da música popular. A sua reacção ao concerto electrificado de Bob Dylan no festival de folk de Newport é mítica: furioso pela atitude rebelde do seu discípulo, Seeger terá pensado em cortar os fios dos amplificadores que alimentavam a guitarra de Dylan com um machado, porque não conseguia entender as palavras cantadas por baixo de toda a distorção eléctrica. No momento em que acontecia um ponto de cisão na carreira daquele que será o maior génio da folk, Seeger terá escolhido o conservadorismo, manter-se fiel à pureza do som acústico da folk. O cantor progressista, o activista socialista, não gostou da mudança na música e na atitude de Dylan. Acabaria mais tarde por reconhecer que se enganara, considerando que algumas das melhores canções de Dylan são eléctricas.

E para lá das histórias e do combate, há a música.  

24/01/14

Breaking Bad (2)


3. A droga.
Terá sido um acaso o que levou o criador da série (Vince Gilligan, antigo guionista de X-Files) a Albuquerque, Novo México. Vantagens financeiras ditaram que a acção se situe nessa cidade, em vez de Los Angeles, a ideia original. Por outro lado, a proximidade da fronteira com o México, principal porta de entrada de estupefacientes nos EUA, permitiu que as diversas linhas narrativas conquistassem uma riqueza que Los Angeles não permitiria. Para além da paisagem - uma das marcas da série, de que falarei depois - há a questão geográfica. Os principais fornecedores de droga daquele que se tornará empregador de Walter White, Gus Fring, são mexicanos. A cultura de violência ligada ao tráfico tem uma expressão extremada do outro lado da fronteira. El Paso, no Texas (a cidade para onde Hank, o cunhado, é a certa altura deslocado), fica a uma ponte de distância de Ciudad Juarez, considerada a cidade mais perigosa do mundo. O culto da violência dos carteis associado a uma religiosidade pagã transfigura a ideia de morte, torna-a mas próxima dos vivos. A presença da morte é uma banalidade, a violência inevitável. A droga é o pretexto, rastilho dessa violência, que desde o início impregna a acção. Numa pacata cidade perdida do meio do deserto, existe um outro mundo de que Walter White toda a vida se alheou - apesar da relação familiar próxima com uma agente da lei. Ao fazer uma escolha, ao tornar-se fabricante de metanfetamina, o que se torna estranho aos seus hábitos, à sua nova vida, é a vida familiar - recorde-se, a razão pela qual ele se envolve com as margens da sociedade burguesa a que pertence. A lenta transição do homem de família para um fabricante de droga, no seu sentido pleno, vai alterando as coordenadas de normalidade que antes regiam a sua vida. O que antes era normal passa a ser uma fonte de preocupações - a família torna-se alvo de quem vive além dos valores tradicionais do homem médio americano - e o novo normal passa a ser o dia a dia no laboratório de metanfetamina, produzindo para o maior distribuidor de droga do sudoeste.

4. Os traficantes.
Há dois tipos de traficantes na série: os que não passam de estereótipos semelhantes aos que vemos em filmes e séries de televisão, e os que se diferenciam, e que são desenvolvidos ao longo de muito tempo, até se tornarem personagens credíveis, combatendo o cliché do qual se destacam. Walter White e Gustavo Fring aparentam ter bastante em comum - mas o desenrolar da série mostrará que não será tanto assim. Walter ainda não é traficante - apesar de aos olhos da sua mulher ele passar por um -, é apenas um homem que usa uma máscara social que encobre as suas actividades ilícitas. Como ele, Fring compõe uma personagem, passando por homem de negócios sereno, benemérito, ajudando a polícia e fazendo generosos doações à DEA, a hospitais, a lares da terceira idade. A história de Fring será mostrada em flashbacks, e ele revelar-se-á tão implacável e duro como os estereotipados traficantes mexicanos, os barões da droga que vai eliminando ao conquistar o poder que detém no presente. Nunca sabemos o que ele verdadeiramente pensa, mas temos a certeza de que estará sempre um passo à frente do que vai acontecendo à sua volta, como Walter salienta a determinada altura. Como este, Fring demonstra ter uma inteligência superior, é isso que lhe permite movimentar-se no seu mundo. Partilham assim duas características, Walter e Fring: a dissimulação e a inteligência. O que os distingue serão os valores éticos, a família e o sentido de pertença a uma comunidade. Fring perdeu isso há muito, ou nunca chegou a ter. Somos assim colocados perante uma clara oposição entre o herói, Walter, e o vilão, Fring. A simpatia inicial que sentimos por este vai desvanecendo, à medida que o vamos conhecendo.

(Continua. Primeira parte aqui.)

22/01/14

Breaking Bad

1. O título.
É esclarecido logo num dos primeiros episódios, quando Jesse Pinkman atira a Walter White: "descobriste que tens uma doença que te vai matar, e por isso é que tornaste traficante". Esta frase resume a linha narrativa da série: o que é que acontece quando um homem banal, submetido às regras implícitas do capitalismo e aos ditames da classe média a que pertence, se vê confrontado com a morte, iminente mas com um prazo mais ou menos alargado de tempo? Claro que Walter White não é um homem banal; é um professor de química num liceu de uma cidade de província, um "underachiever" - como mais tarde é referido por um dos criminosos que com ele trabalham -, alguém que nunca concretizou em pleno o seu potencial, o que é suposto acontecer numa sociedade competitiva. Mas o seu génio é o que lhe permitirá sobreviver durante o tempo suficiente para deixar uma herança à sua família, não o que o define enquanto ser humano. Ele utiliza a sua superior inteligência para providenciar à sua família o necessário sustento (o que a sociedade capitalista espera de qualquer homem). O "tornar-se mau", no caso de Walter, não é cair no lado do mal, tal como ele é entendido no seu sentido absoluto e filosófico. Há um imperativo categórico na decisão de Walter: ganhar suficiente dinheiro para deixar à família. Portanto, ele transgride, passa para o lado de lá da lei - e o cunhado, agente da DEA, está do lado de cá, sinalizando a transgressão -, mas fá-lo em nome de preceitos da comunidade onde vive, das regras sociais que o constringem.

2. As regras.
A meio da primeira temporada, Walter diz: "antes sofria de insónias, acordava a meio da noite pensando na vida, e desde que recebi a minha sentença de morte tenho dormido como um anjo". Ficaremos durante algum tempo na dúvida sobre a razão desta súbita paz de espírito. O movimento que o levou ao outro lado, a "tornar-se mau" trouxe-lhe a (ilusão de) compreensão do que antes o deixava perplexo. A angústia existencial foi domada, e o sono regressou. Mas esse alívio não vem da nova actividade a que ele se dedica, mas da libertação dos sofrimentos que a vida traz. A proximidade da morte foi a causa da libertação? Não. Foi ter deixado de sentir-se preso às regras que, durante toda a vida, o conduziram a um ponto tão agudo de frustração que apenas a suave anomia de uma vida familiar lhe poderia oferecer um simulacro de felicidade. Morre Walter White, e no seu lugar nasce Heisenberg, o perigoso traficante de droga sobre o qual se tecem lendas e se escrevem canções, como os músicos mexicanos fazem aos barões que comandam os carteis. 

(Continua)

07/01/14

Existir

Dando mais um passo na invasão da privacidade dos utilizadores, a Google adicionou uma funcionalidade ao interface mail/blogue/rede social, e agora podemos ver todas imagens postadas no Facebook e no blogue. Esquecendo a questão da privacidade - se eu estivesse verdadeiramente preocupado com isso, não existiria na virtualidade real por onde ando -, a verdade é que o conjunto das imagens associadas ao que vou fazendo mostra parte do que sou, da minha identidade - forjada, claro que está, até porque sabemos que todas as identidades são uma fabricação, o pano que deixa a descoberto outro pano sobre o palco.
Muitos frames de filmes são o sinal evidente que a vida virtual compõe-se sobretudo de ficção. Os filmes que vejo, as actrizes - várias mulheres, quase todas mortas e a preto e branco -, os enquadramentos que me marcaram. É uma história paralela da minha vida - olho para trás e quase que consigo saber quem fui quando me apaixonei pelo "Paciente Inglês" ou quando me comecei a perder nos labirintos mentais de David Lynch. 
É claro que muito do que fui publicando no blogue reporta-se a um tempo anterior às redes sociais. A passagem para a vida adulta, aquele momento em que se estabelecem os pilares de uma personalidade - ponto de partida da identidade que floresce a partir da inevitabilidade melodramaticamente metafísica dos trinta anos - é pontuada pelas inúmeras vias divergentes, os mil e um focos de interesse numa rede que se afigura quase infinita, como se sentindo tudo de todas as maneiras fosse o único modo de viver. Estão lá os livros, os filmes, as bandas, os quadros reproduzidos no espelho ausente do mundo virtual. Sei o que fui quando gostava do que fui publicando, mas já não tenho tanto a certeza de que aquilo que fui tenha sido mesmo. Aquele começo de dúvida subjectiva, entre o espanto e a desconfiança, que transforma a vida num filme projectado contra uma parede de vidro, a transparência e a luz, a evidência e a incerteza concentradas num intervalo de sombra. 
Os dois passados coabitam no mesmo espaço. O código de programação que marca o avanço do tempo pode ser facilmente subvertido. Consigo mudar datas, alterar acontecimentos, mentir. Mas enquanto a falsa identidade que vamos construindo no passo dos dias é dificilmente rebatível pelos outros - o que passou, passou -, a que vamos por aqui deixando deixa uma pegada mais nítida. A única vantagem desta existência de bits é a curta distância entre o ser e o nada, o clique na tecla delete. Vale isto alguma coisa, enquanto quero. A ilusão de controlo é tudo.

Estrada de Sudek

13/12/13

Diário de Dezembro (3)


Uma das notícias do dia vem de África, mas não fala de calor nem de deserto, nem de violência. No Cairo, cento e doze anos depois, nevou. Fotografias circulam pela net, aparecem nos jornais on-line. Uma cidade de sol coberta de um branco sujo, retalhada em imagens naturais ou manipuladas por filtros digitais, uma cidade que por momentos parece ter sido deslocada do seu paralelo para outro muito mais a norte. Há alguns dias, outra notícia dava conta de que tempestades de neve tinham atingido o sul dos EUA, e uma vez mais fotografias tiradas na "sunny California", onde a primavera parece ser eterna, mostravam cidades desabituadas do frio tomadas pelo manto silencioso da neve. 
A natureza excepcional deste acontecimento atmosférico parece contradizer o que fomos ouvindo nas últimas décadas. Caminhamos ao contrário do aquecimento global previsto por milhares de cientistas em todo o mundo, e isso apenas pode ser uma coisa boa. Parece que a Natureza dispensa as previsões e os estudos que as suportam, e toma o seu curso habitual lutando contra a mão humana que vem alterando de forma esmagadora o meio ambiente onde calhou vivermos. 
Mas pode ser tudo, claro, um fenómeno transitório, irrepetível. Talvez os modelos de comportamento do planeta estejam mesmo correctos e naveguemos em direcção a um futuro em que a Natureza rejeitará a conquista agressiva que caracteriza a passagem do ser humano pelo mundo. Se assim for, celebremos estes momentos de absoluto milagre, ainda por cima o mais provável dos milagres, o que nasce da possibilidade de uma combinação de elementos que, a determinada altura, resultou.

12/12/13

Diário de Dezembro (2)

O ritmo estabelecido pelo correr dos dias, o ritmo circadiano – a manhã, a tarde, a noite e o adormecer – tem tanto de biológico como de cultural.
Li recentemente uma notícia sobre uma descoberta científica (histórica?), revelando que o horário habitual para o período do sono – as sagradas oito horas diárias que os médicos aconselham e a que os poetas e os loucos procuram escapar – era consequência de uma invenção humana. A progressiva introdução da luz artificial nos hábitos humanos, ocorrida sobretudo a partir do século XVI, permitiu que a vigília se prolongasse muito para além do pôr-do-sol. Esta mudança – como quase todas as que o progresso tecnológico traz – ocorreu primeiro nas camadas mais ricas da população. A nobreza e a burguesia podiam dar-se ao luxo do convívio social noite fora. Os mais pobres, nem por isso: mesmo com luz artificial, a obrigação do trabalho cedo, raiando o sol, continuaria a não permitir o usufruto dos avanços científicos.
E como se regulava o ciclo dos dias, até essa época? As pessoas deitavam-se assim que a noite caía, após a última refeição do dia, e espantosamente (aos nossos olhos) acordavam a meio da noite e conversavam durante uma ou duas horas, comiam, e voltavam a adormecer até ao amanhecer. Estaria assim o ciclo circadiano humano mais próximo do de outros animais; repartíamos o sono (e os sonhos) ao longo das vinte e quatro horas estipuladas. Segundo a pesquisa feita, ainda agora conservamos resquícios dessa prática natural. Quem nunca acordou a meio da noite e sentiu vontade de assaltar o frigorífico?
Vivemos portanto os nossos dias lutando contra a natureza, contra aquilo que nos fez humanos. Mas o que nos fez humanos foi tudo o que conquistámos ao que a Natureza nos impôs. Não precisamos de viver de acordo com os ritmos naturais, inventámos os instrumentos necessários a contorná-los, sobrepô-los, esquecê-los. Precisamos da noite e da luz artificial para prolongar o nosso tempo de lazer. O dia para o trabalho, para a ocupação monótona do corpo; a noite para a leitura, para a conversa, para estarmos uns com os outros – a noite para a libertação completa do espírito.
Distanciarmo-nos tanto do que em nós é animal, instintivo, poderá ter um preço. É à noite que o medo espreita. Se quando vivíamos nas cavernas esse medo era palpável e usava o rosto dos animais que nos caçavam, agora tornou-se difuso, e em vez de ser uma presença, é esquivo, misterioso: uma ausência. Na noite, entregamos o espírito ao que não pode ser descoberto. Não temos feras que nos matam, ameaças claras, e no seu lugar há como que um círculo invisível ao redor do qual traçamos infinitas investidas, voos de reconhecimento, que nunca chegam a determinar de forma exacta as coordenadas espaciais que procuramos. Rondar a verdade antes de adormecermos é um inútil exercício, votado à derrota. E contudo a ele voltamos diariamente, ou então esforçamo-nos por não voltar, tentando enganar o que não poderá ser enganado. Quando vivíamos no meio de feras, o mundo era mais certo.

03/12/13

Diário de Dezembro (1)

O frio não é tanto que não se consiga suportar. Queixar-me dele e pensar no Norte, nos países dos prolongados invernos e das noites que não chegam a ceder ao dia, é um sintoma de fraqueza. Viver acima dos trópicos – os de Michaux e os de Claude Lévi-Strauss, onde a doença acampa à porta de cada coisa e vive na vizinhança de uma beleza transcendente – e abaixo do círculo imaginário da neve – tem tanto de conforto como de delicada monotonia. Até que ponto a ausência de filósofos e o excesso de poetas não será consequência de um incidente geográfico? Vivemos a sul, mas não o suficiente para que tivéssemos inventado o samba – simplesmente fomos tão longe levar a melancolia que criou a bossanova e a morna. Não somos capazes da alegria, mas não somos tristes a ponto dos nossos criadores, ao longo dos séculos, se terem fechado dentro de casa a estabelecer modelos filosóficos. Fernando Pessoa, encerrado no seu quarto de funcionário, abria uma janela e deixava a luz entrar, apagando os vestígios de angústia e eliminado qualquer possibilidade de impor uma ordem aos seus infinitos papéis, às suas múltiplas identidades. O estilo fragmentado do “Livro do Desassossego” é a prova de que a filosofia falha, decompõe-se, e esboroa-se, quando manuseada pelo gesto intermitente e incerto de um qualquer pensador português. O trabalho do filósofo, rigoroso, aborrecido, dividindo cada ideia na ideia de si mesma até ao ínfimo pormenor, precisa de um tempo e de um espaço concentrados de tal modo que desapareçam, e no seu lugar apenas as palavras dando corpo às ideias e aos esquemas da mente sobrevivem. O poeta, mesmo quando metafísico, como Bernardo Soares, perde-se e afasta-se da ideia inicial, diverge, viaja dentro de si próprio sem mapa nem bússola. Escrever é sempre um acto de partida – de um lugar preso de incerteza para o outro ainda mais incerto – e tem uma potência em si que o filósofo quase sempre despreza - o seu material de trabalho são ideias, as palavras apenas um meio de as transmitir, uma ferramenta. Para o poeta as palavras são ferramenta mas são também “metal fundido”, pronto a ser moldado, transformado noutra coisa distante da sua função original – a língua na qual elas existem.

25/11/13

Nexo

Há, só pode haver, um encadeamento de acontecimentos, de notícias, que é inspirado por um qualquer sopro divino e misterioso. Mas sem qualquer metafísica: as coisas acontecem em sucessão porque a natureza se dispôs a isso. Teria de ser, ou um qualquer equilíbrio cósmico seria perturbado sem remissão. Claro que, olhando para trás, reconstruímos percursos, unindo pontos e estabelecendo simetrias que qualquer outro escolhido ao acaso acharia nada terem em comum. O nexo de causalidade é na realidade um nexo de casualidade, ou um desconexo de causalidade. Encontramos uma causa para cada efeito observado, um sentido para o caos que nos compõe a vida. O meticuloso, o obsessivo, o compulsivo, procura recentrar os passos e repetir gestos, mas a cada repetição fica mais distante do acontecimento original. Há uma ligeira diferença, um afastamento das coisas que nos são familiares de cada vez que as celebramos. Os rituais evocam uma realidade a que não poderemos voltar, e por isso a cada encenação do ritual este vai perdendo força, porque um ritual não passa de uma recordação de si próprio. Há uma equivalência superficial entre o divino que julgamos governar o mundo e a razão que atribui ao acaso uma qualidade ordenada. Não há na verdade séries de acontecimentos, mas um contínuo interminável, que não conseguimos estancar, um corte que não pára de jorrar. Por isso esperamos esse sopro divino que organize o caos, cicatrize a ferida. A passagem de um estado a outro, que nunca chega a acontecer.

21/11/13

Colheita

Após tantos dias de pousio, isto aqui continua seco, infértil, sem erva que desponte, ruim ou sã, maldita ou vicejante. Todas as aproximações ao ponto certo, as circunferências, os voos picados, ou a planar, perto e lento, ou rápido e nervoso, têm falhado. É uma questão de método. O campo vazio, pronto a receber as sementes que lhe queiram atirar, mas ninguém com a força, a coragem, para o preparar para o seu próximo ciclo. O sol espera, a chuva também, o vento que irá varrer o resto das colheitas do verão passado passeia-se em volta, aguarda e sopra como se o papel destinado não pudesse ir parar a outras mãos, mais sábias ou mais certas do que podem fazer. As nervuras da terra desenham objectos que apenas se vêem do céu, como as gravuras imemoriais que em tempos alguém achou serem marcas de astronautas do outro lado do rio. Mas de cima a baixo, tudo é plano, tudo é térreo, a profundidade não passa de uma ilusão a que os cegos se dedicam empenhadamente, com medo de morrer. Planaltos, colinas, montes, os picos da mais alta cordilheira, alisados por uma régua que dobra o espaço, e mais atrás os olhos curiosos de uma criança e a sua mão febril, voraz, apagando e riscando e desenhando por cima outro universo. Tantos dias de pousio, e nada parece nascer. E, no entanto, move-se. Mas não vemos, nem sentimos. Não sabemos.

01/11/13

Janus

O meu primeiro morto foi o meu avô. Muitos anos depois, mais velho, uma rapariga dizia-me, em tom irónico (como pôde?), que nos tornamos adultos quando a primeira morte nos apanha, e a partir daí nada será igual. Muitos anos depois, percebi que esta ideia, sendo um lugar-comum a evitar, é mais uma daquelas coisas que pertencem ao património humano, algo que herdamos e que se transmite culturalmente, ou talvez esteja inscrito nos genes - a sensação de perda.
Rapidamente passamos dessa fase de ilusão para a adolescência. Quem não passa por esse primeiro momento acaba por lá chegar. Dizem os cientistas que a consciência de um "eu" começa a desenvolver-se - ou a evidenciar-se - desde cedo, nos primeiros meses de vida. Mas desconfio de que esse "eu" apenas se torna pleno, verdadeiramente humano, quando aprendemos que um dia vai desaparecer, e com ele o mundo. A idade da razão é sobretudo a idade do medo. Vivemos todos os dias no mundo a caminho de um fim. E saber que ele poderá continuar, matéria persistente depois da partida, não atenua o medo nem diminui o sentimento de urgência. 
A psicanálise encontrou uma fórmula para descrever esta aceitação do que perdemos, do que vamos perder: a negação. No fundo do espírito, espreita a verdade, a que viramos a cara. Essa verdade é como Janus, o deus latino com dois rostos, um virado para o futuro, outro para o passado. Nós vivemos de rosto voltado para o passado - a memória - existindo no presente, e forçamo-nos a esquecer a máscara que olha para o futuro. Recusamos a verdade que Janus nos oferece, o futuro que está atrás, do outro lado. Somos cegos por vontade própria, um esforço que nos permite a sobrevivência - a psicanálise também diz que quando esta barreira se rompe, e desaparece a negação, caímos num abismo mais profundo do que a própria morte. Prefiro a palavra melancolia para descrever este estado, em detrimento da mais comum depressão. 
Durante alguns dias depois do funeral, fomos obrigados ao silêncio em casa. Não podíamos ligar a televisão, mostrar alegria, e as brincadeiras, apesar de autorizadas, tinham de ser discretas. Os rituais que envolvem o desaparecimento oscilam entre a verdadeira tristeza - a perda é real - e a encenação. Simulamos a tristeza para que o morto deixe em nós uma marca mais profunda. Quando a tristeza é demasiado real, e se entranha, torna-se patológica, e não conseguimos regressar ao mundo. O luto tem de ser feito, temos de tornar simbólico o que é real, para que a verdadeira realidade - a nossa vida, sozinhos, isolados de quem nos rodeia - nos volte a abraçar e voltemos a poder emergir no seu tecido. 
A questão a que todos voltamos: será melhor saber ou não saber? "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos/Eu era feliz e ninguém estava morto". Fernando Pessoa tem uma resposta.

30/10/13

A amante holandesa

Nunca me tinha acontecido sonhar com uma personagem de um livro. Muitas vezes andaram a rondar o meu espírito durante dias, semanas, anos, regressando de tempos a tempos a meio de um pensamento ou no intervalo de uma frase numa conversa. Alguns escritores dizem frequentemente, entre a verdade e a simples armadilha de marketing, que se apaixonam por personagens que criam, sofrendo quando terminam o livro. Não me lembro de leitores assombrados por figuras de ficção, por pessoas inventadas, vivendo uma existência de papel, frágil e ao mesmo tempo contendo em si possibilidades de eternidade. Talvez haja leitores desse tipo, e se assim for já terão sido criados por Jorge Luis Borges, o escritor dos leitores improváveis - ainda que nunca tenham sido passados às páginas de um livro.
Pela primeira vez aconteceu. Acordei do sonho com um sorriso nos lábios, o perfeito reverso da angústia que se sente ao despertar de um pesadelo. Sei que a ficção pode deixar marcas invisíveis, duradouras, mas não pensei que pudesse mergulhar de forma tão profunda na vida, atravessando o rio que separa o sono da vigília. Não que a literatura não me tivesse já avisado disso. Não é a viagem de Virgílio à procura de Beatriz uma jornada onírica? A morte não será um sonho no qual se perde quem nos ama? Deitar a cabeça na almofada, deixar que o sono transporte o espírito para paragens desconhecidas, cair no abismo discreto do sonho. E sonhar, ou perder a vida, perdermo-nos no esquecimento.
No meio de um sonho banal, ela apareceu. Alta, loura, corpo jovem e cheio, repleto de promessa. Nunca um convidado tinha entrado de forma tão intrusiva na mais reclusa intimidade a que temos direito. Certas teorias psicanalíticas dizem que todas as figuras que dançam connosco nos sonhos são projecções do Eu, outros Eus confrontando-nos, revelando o que na realidade somos. Não sei se acredite, e se precisasse de prova irrefutável para acabar com esta suspeita, poderia dizer que a encontrei, ao encontrar uma personagem de Rentes de Carvalho a meio de mim próprio. A amante holandesa, saída do livro homónimo, ela própria, na dupla encarnação imaginada pelo autor, amante inventada por Gato e amante real - mesmo que de aparência sonhada - do narrador. No meu sonho, ela era as duas, perdida entre a juventude eterna a que apenas a ficção pode dar vida, e aquela meia-idade a caminho da velhice em que as duas Clarisses existem. Quando acordei, os pormenores tinham-se desvanecido. Sentia ainda no corpo os vestígios de um desejo estranho, nascido de uma imaginação que se alimenta de outra. Mas ela tinha sido real, existira. De uma existência de papel para uma existência mais ténue ainda, a amante holandesa viveu em dois mundos. E quem poderá afirmar, para além de qualquer dúvida, que cada um destes dois mundos não é mais verdadeiro e concreto do que o mundo real para onde todos os dias acordamos? Vivemos do espírito, não do corpo que o carrega.

28/10/13

Lou Reed (1942-2013)

Como aconteceu com quase todas as bandas que lançaram álbuns marcantes antes dos anos 90, cheguei aos Velvet Underground através de referências de músicos que admiravam essas bandas e que faziam parte do meu esquema das coisas. Quem me ensinou a gostar dos Velvet Underground foram os Nirvana. Passava na XFM uma cover de "Here She Comes Now", do álbum "White Light/White Heat", incluída num álbum de homenagem aos Velvet, "Heaven and Hell", o 1.º volume de uma série lançada em 1991. Acabei por comprar este álbum (mas agora não sei por onde anda) e ouvi incessantemente as músicas tocadas por bandas como os Ride, Chapterhouse ou Screaming Trees. Pouco tempo depois, comprei "Velvet Underground & Nico" e "Transformer", incluídos num top de melhores álbuns de sempre da XFM. A cover dos Nirvana, sendo mais pesada do que o original, mostrava o que os Velvet têm de melhor: as melodias urbanas cobertas por camadas de ruído, de feedback, até à saturação. As letras de Lou Reed completavam o efeito, criando uma atmosfera que, na minha imaginação, representa a Nova Iorque de Andy Warhol, entre o excesso e a depressão, um negrume distante do flower power e do psicadelismo, da pop colorida que parte do mundo ouvia na altura. Os álbuns europeus de Lou Reed foram, de certo modo, a mesma descoberta das cidades e de um submundo frequentado por prostitutas, chulos e traficantes - o brilhantismo das letras de Reed passa por uma atenção ao pormenor que transforma cada canção numa pequena história de fracasso, perda ou melancólica euforia -, uma descoberta partilhada durante algum tempo com David Bowie, também ele perdido (ou reencontrando-se) na Europa de onde tinha saído a determinada altura da sua carreira. Nunca tendo visitado Nova Iorque, sei bem que não a encontrarei como era nos anos 60, quando Lou Reed e John Cale, Bob Dylan e Andy Warhol, por lá inventavam o futuro da música. E se Dylan sempre se equilibrou entre o pretensiosismo dos artistas nova-iorquinos e um certo pendor evangélico de raiz rural, Lou Reed nunca saiu de Nova Iorque, mesmo quando andou pela Europa. Entre o minimalismo das guitarras noise - sim, milhares de bandas construíram carreiras à sombra dos caminhos desbravados pelos Velvet - e a poesia das ruas, Lou Reed foi provando que, com recursos mínimos (vocais, técnicos), se podem escrever grandes canções. É esse, no fundo, o espírito da música pop. Mesmo quando o abismo espreita em cada verso.

26/10/13

Joaquim Palhares

Partindo do princípio - de tudo, o princípio de tudo - que todos nós, sejamos conhecidos por milhões, ou pobres anónimos vivendo e morrendo na sarjeta, não passamos do resto que ninguém irá recordar, a seu tempo, não deixa de ser abracadabrante depararmo-nos com os tristes desconhecidos que um dia atravessaram o caminho de pessoas maiores do que eles, nomes que ainda agora conhecemos, admiramos, endeusamos. 
Ocorre-me isto de cada vez que penso nos milhares de críticos que ignoraram os livros de Kafka ou os filmes de Ozu - apesar de aquele e este no seu tempo terem sido reconhecidos por alguns. Do mesmo modo neste preciso momento passam por nós livros e filmes que ninguém nota, discretas obras que daqui a umas dezenas, centenas de anos, serão elevadas a olimpos a que agora não podem aceder. E mesmo duvidando de que esta verdade possa acontecer - não haverá agora um acesso quase universal a tudo quanto é publicado? -, acabarão por passar por nós, pelo tempo da nossa vida, alguns génios que apenas serão reconhecidos como tal quando já ninguém se lembrar deles. E de nós. 
Os desconhecidos que passaram pelo que era maior do que eles e ignoraram, esqueceram ou não viram. E os outros, os funcionários cansados que, mesmo reconhecendo qualquer coisa que os transcende, se limitaram a colocar o carimbo normativo, selo de uma educação formatada, de uma ordem superior, de uma mediocridade burocraticamente ordenada, política. 
É esse o caso de Joaquim Palhares, censor entre tantos outros, que leu um livro de Herberto Helder e, nele não encontrando ameaça de ordem política (apesar da "índole esquerdista"), reservou à obra a via da proibição, o silêncio da censura, por conter "passagens de grande obscenidade", apesar de não merecer qualquer reparo como "obra literária". Fascinante. Nem no recolhimento do papel menor que lhe foi confiado Joaquim Palhares deixou de dedicar à obra censurada o seu juízo crítico. É certo que a este juízo se sobrepôs um juízo ético acomodado ao regime da época, mas não deixa de ser digno de nota que no auto lavrado Joaquim Palhares não se tenha abstido de tecer considerações sobre a qualidade literária do objecto avaliado. 
Por onde andará agora este cansado funcionário? Poderá ter morrido, deixado descendência. Ter sido esquecido por todos os que o conheceram, e o seu nome, para além da efémera fama de aparecer num auto de censura a Herberto Helder, apenas existir gravado no mármore ou num registo perdido de nascimentos, casamentos, morte. Porém, existiu, existiu apenas, e existiu mais do que todos os funcionários e poetas e artistas que nem à fama de partilharem o mesmo espaço da História com Herberto Helder puderam aspirar. Andaram por cá, desapareceram. Um nome num papel é mais do que isto. Até que o fogo o queime, e o último homem esqueça.