30/04/12

Um mundo iluminado

Um livro que tem como ponto de partida o pensamento de David Foster Wallace, Moby Dick e os textos homéricos seria sempre um empreendimento gerador de interesse, sobretudo quando é escrito por dois professores de filosofia, um especialista em Heidegger e outro em fenomenologia. Um Mundo Iluminado consegue cumprir expectativas, sobretudo para quem, como eu, não espreitara qualquer referência ou crítica nos jornais.
Ler os clássicos para encontrar sentido numa era sem deus. O crescimento do domínio de influência das chamadas obras de auto-ajuda levou a que gente respeitável escreva textos que facilmente se poderão confundir com uma área das livrarias vedada a quem tenha o mínimo respeito por si próprio. Alan de Botton sofre do mesmo mal ou da mesma vontade de destruir três mil anos de pensamento ocidental, transformando a complexidade do pensamento filosófico num pudim light para o grande público. O mínimo denominador comum para o máximo público, eis um desejo que tanto pode ser digno como uma fraude filosófica. Mas, abençoados pelo pedagogismo de Sócrates, estes pensadores conseguem explicar ideias complexas sem destruir o pensamento original nem desvirtuar a essência dessas ideias.
A técnica de Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly é simples, sem deixar de provocar alguma surpresa: extrair de alguns textos literários, clássicos e contemporâneos, meios de enfrentar um mundo que teve de enfrentar, com uma simples frase de um filósofo, a morte de Deus. Discutir se Nietzsche se limitou a confirmar o diagnóstico não cabe nem aqui nem no livro de Dreyfus e Kelly, mas ninguém poderá recusar a ideia de que algo mudou com a frase assassina do filósofo alemão.
Como chegou a humanidade àquele ponto e o pensamento filosófico àquele cúmulo? Partindo das obras homéricas, no panteísmo dos deuses da Natureza e do Destino que conduziam as acções dos homens e dos heróis, passando pelo retrocesso humanista da Idade Média - a ideia é claramente defendida pelos autores - até desembocar na demanda insana de Ahab, o livro pretende criar um plano para resgatar o ser humano da solidão niilista em que vive. 
Os autores terem conjurado as ideias de Foster Wallace para simbolizar essa deriva sem solução foi uma excelente decisão: as ideias são um vinho de aroma requintado ao gosto da burguesia perdida, a que procura uma nova poiesis num mundo dominado pela técnica. O escritor norte-americano parece ter perdido, ou então terá levado demasiado a sério a única questão filosófica de Camus. Mas este livro sobrevive. Um artefacto.

Ruínas

Koyaanisqatsi

29/04/12

Público e privado

O entusiasmo pelas coisas que estão fora do plano privado é vazio e breve. Mas, por momentos, parece ser tudo, tornando o rosto público real e não uma máscara. O pior dos equívocos. 

Começar pelo princípio

Antes de teres um plano para a tua vida, lembra-te de arranjares um para o teu dia.

20/04/12

Excedentários

Só consigo ser disciplinado na indisciplina, rigoroso na falta de método, um funcionário que se esquece de picar o ponto. Talvez por isso escreva e não goste de tecnocratas - repare-se, não escrevi detesto; não quero gastar emoções fortes com essa raça excedentária da Criação.

Tiros no vazio

Sombras, problemas. Sombras. Apenas uma escolha verdadeira. Já não vou a tempo de brincar aos índios e cowboys: fugir não é uma opção. Preciso de balas verdadeiras, de prata, e não de fulminantes, tiros no vazio.

19/04/12

Um alvo

Como usar metáforas de forma literal? Imaginem um alvo distante e uma flecha certeira; apontar; atirar; errar sempre. Um dia as flechas hão-de acabar.

17/04/12

O duplo

Um homem que encontrasse o seu duplo e o matasse, viveria duas vezes?
O confronto entre as expectativas do passado e a realidade do presente é como acordar de um sonho de onde não queremos sair: tentamos prolongar o momento do sonho, mas acabamos sempre por despertar.

16/04/12

Lisboa, se fosses só três sílabas

"Nunca me apeteceu tão pouco regressar a Lisboa. Já houve épocas em que pensei em ir embora, mas nunca fui, por atavismo, receio, comodismo, mas também por gosto genuíno em viver aqui. Agora, porém, sinto que Lisboa está vista, ou antes, os lisboetas, os comportamentos parecem-me pavlovianos, sem surpresa ou frescura, as amizades foram-se deslassando, a paciência diminui, os constantes «contactos» são agradáveis mas fungíveis, cansei-me de fogachos e decepções, tornei-me mais reticente e recluso, e ainda por cima Lisboa é cada vez menos uma cidade, fecham cinemas, livrarias, cafés, começa a ser indiferente viver aqui ou em qualquer outro sítio, basta uma «ligação» e temos tudo em todo o lado, desta vez nem senti que passei uns dias «fora do mundo», como dantes, a única diferença foi um ambiente mais calmo, mais higiénico, de onde estavam ausentes o darwinismo infrene, o situacionismo degradante, a hostilidade mesquinha. Regressei sem vontade, o que nunca tinha acontecido. Não tenciono ir-me embora, mas pela primeira vez senti que podia ir-me embora, é triste quando a nossa cidade não nos faz falta."
Pedro Mexia.

14/04/12

Telex: 1

Escrever,
um método
para correr
à volta
de um ponto cego.
Correr
e regressar
e entender que nem tudo
pode permanecer.

O ponto, o nó, o lugar.

Equívoco

Do que não sabemos não devemos falar. Mas falamos sobretudo do que não sabemos, e criamos para saber ao certo o que não conhecemos, escutar o que não se ouve, ver o invisível. Antes da criação, nada. Depois, outro nada em que julgamos acreditar.

06/04/12

Ilusão

Queremos ser severos, queremos ser dramáticos, queremos ser tão trágicos como as gerações que nos precederam. Mas somos apenas farsantes, ou menos que isso: a ilusão de sermos actores numa peça que não escrevemos.

02/04/12

Coro grego

O cliché é deixar o futuro em aberto. Na possibilidade de o conhecermos, desistir, recuar. Queremos um universo prenhe de expectativas, ignorando o que nos espera. Não há outra hipótese. Pensar que poderá haver, imaginar que poderíamos conhecer tudo o que virá, resulta numa desnecessária angústia - se nos fosse oferecida a possibilidade de escolha, recusaríamos tudo, saber e escolher. Ninguém quer ser coro grego da tragédia que se vai desenrolando.