31/03/11

Mercúrio

Farley Granger (1925-2011)

Os dois únicos filmes que terei visto com Farley Granger jogam na ambiguidade sexual da relação entre dois homens, provocações de Hitchcock na América dos anos 40. O Desconhecido do Norte Expresso é uma adaptação do romance de Patricia Highsmith e põe em cena um desejo sublimado: o crime perfeito. Dois estranhos que se encontram num comboio e trocam de vítimas porque ninguém os poderá relacionar a cada um dos casos. Perverso, tanto quanto o rosto de galã de Granger o permitia. Em A Corda, um exercício formal sobre a maldade e a amizade masculina que não corre bem. Granger mais tarde dedicar-se-ia ao teatro. Mas pela mão de Hitchcock, deixou muito ao cinema.

28/03/11

Cama com luzes

William Eggleston.

Escrever a viagem

imobilidade fulminante da escrita e o movimento permanente da viagem: os dois territórios em que o escritor viajante se encontra. Entre um e outro, entre a velocidade da mão sobre o papel e a atenção do olhar sobre a paisagem, a dinâmica da memória, o vaivém entre passado o futuro, esbatendo o eterno presente. A dobra nascida deste embate, desta comunhão, desdobra o espaço em todas as suas dimensões. Mas Sebald ultrapassa estes vastos limites: cria pensamento.

Caminhos de floresta

Um escritor de viagens precisa mais do país de onde partiu do que do seu destino. O deslumbre do exterior, do que está fora, é material para juntar e compor o texto da sua própria viagem, um percurso invisível a todos. E no país que fica, estão as referências, as imagens com as quais as novas imagens recolhidas no exterior se vão comparar. O deslumbre é assim um reconhecimento, uma revelação de algo até aí secreto para o viajante. A paisagem é mental, a viagem uma simples ilusão temporal, um delírio. As fotografias a derradeira mentira: nunca estivemos naqueles lugares, não somos os que vivem ali, nas imagens. Mas acreditamos. Não passa disso e já é muito.

17/03/11

13/03/11

Istambul – de um livro a uma verdade

Cidade com livro no bolso; de Orhan Pamuk, para o caso, e que se chama Istambul, Memórias de Uma Cidade. A quinta edição, publicada pela Presença. Traduzido do inglês, descobri ao fim de algumas expressões que apenas poderiam ser versões enfraquecidas de expressões idiomáticas na segunda língua que conheço melhor. Curiosamente, a ficha técnica do livro não refere de que língua a tradução é feita. Seja como for, o português é suficientemente escorreito para ter sido um prazer, ter pegado nesse livro – mas nunca o consegui enfiar no bolso, e não vou culpar o tamanho do livro (e a tradição de haver poucos livros em formato pequeno por cá) mas sim o tamanho dos meus bolsos. Não adianta chorar os passeios a pé com livro atrás que não cheguei a fazer; em termos logísticos, os passeios a pé já são suficientemente pesados para se poder levar mais um objecto (e, para cúmulo, parece que neste objecto, dizem, podem caber mundos). A mochila carregada das minudências habituais – garrafa de água, algo para comer, o guia de que vamos precisar apenas um por cento, um resto de roupa que o calor obrigou a despir e um bloco de notas raramente usado, o tal bloco de que ouvi falar nos livros de Bruce Chatwin, há muitos anos, o bloco comprado apenas numa minúscula loja parisiense, e que entretanto se tornou fetiche de meio mundo, obrigando-me a deixar de parte o hábito de comprar os tais blocos, descansando do peso insuportável das páginas deixadas em branco em todos os blocos acumulados ao longo dos anos; a mochila carregada, e o livro que não é de bolso a pesar demasiado a ficar no hotel, charmosa pensão, moderna e arejada, vista para o mar de Mármara, para o passeio da melancolia, o mar calmo batendo na amurada, alguns barcos apodrecendo num abandono ferrugento, guindastes sem uso que apenas servem para enquadrar a outra margem em fotografias batidas de turista com pretensões a nada. Não é o mesmo mar de Pamuk, é certo, e juro que a sombra do escritor não me perseguiu. As imagens conhecidas mostram um homem de óculos, olhos pequenos, um intelectual distante da ideia feita que temos de um turco. Agora também me lembro dos retratos de infância que intercalam o texto do livro: cabelo claro, parece, uma criança triste – as suas palavras, iniludíveis, fixaram em mim uma ideia de tristeza, em permanente diálogo com a melancolia da cidade. A infância fotografada a preto e branco mostra tios, pais, irmão; e mostra os edifícios decadentes, mergulhados no esquecimento, traídos por um mar, o Bósforo, sem luz, dias claros de céu limpo, cinzento a perder de vista, galgando a margem oriental e o perfil recortado dos minaretes de prata. Não estou certo, agora que escrevo sobre isso, que a sombra não me terá perseguido. Mas apenas depois, no regresso. No regresso, quando finalmente abri as caixas com os filmes de Nuri Bilge Ceilan e descobri que Istambul não era a mesma de Pamuk, uma cidade assombrada por um passado de glória erguida sobre o sangue de incontáveis mortos, cruzamento de continentes e lugar de guerra e de conquista. O confronto entre a modernidade de Ceylan – certo ser esta modernidade uma ilusão – e a tradição de Pamuk levou-me a que a lembrança da viagem (agora, ainda a mais distância, reforço a ideia) fosse marcada pelas duas margens separadas pelo Corno de Ouro, o braço de mar que é como uma veia onde pulsa o frémito de uma gigantesca urbe com onze milhões de pessoas. A margem direita, a dos bazares antigos, a dos bairros tradicionais onde chegam os milhares de turistas de Nikon em riste, apontando (roubando a alma) à Hagia Sofia, à Mesquita Azul, aos vestígios de Bizâncio, e de Constatinopla. E a margem esquerda, da imponente torre de Galata, é certo, mas sobretudo do bairro da diversão, dos restaurantes, dos bares, dos cafés, Galatasarai cortado a meio pela Avenida Istíklal, percorrida pelo eléctrico antigo de uma ponta à outra. Eléctrico? Sim, e a memória de Lisboa não é apenas uma um acaso aquático – como se o Tejo se fragmentasse em três canais – O Corno de Ouro, o Mar de Mármara e o Bósforo. A ilusão seria perfeita, mas nenhum dos rios de que Istambul se alimenta tem a largura do rio de Lisboa. E enquanto Istambul é uma cidade repartida por três terras e dois continentes, Lisboa é una e indivisível, apesar de Almada e dos arredores. Mas, não será um esforço de imaginação pensar em Lisboa e as suas encostas desaguando no rio como uma gémea bastarda de Istambul – certamente que a límpida luz de Lisboa, naqueles dias de recente Primavera, ultrapassará a luz quebrada pelo fumo de Istambul; mas não há, não pode haver, qualquer competição entre cidades. No entanto, as raízes islâmicas nas quais Lisboa se funda não podem deixar de evocar a cidade turca. São mais as pontes que nos unem, do que as que nos separam.
Cidade sem livro, nesse caso, mas com muito cinema – Pamuk fala das sessões a que assistia dos clássicos turcos, os filmes que mostravam uma cidade desaparecida. O que eu vejo nos filmes de Ceylan é uma cidade crescente, cheia de gente à procura de um destino – são sempre assim, as grandes urbes -, gente que acaba por se perder e nunca se encontrar. Em Uzak (distante), um provinciano chega à cidade e é acolhido por um primo que em tempos também fugiu do campo e se tornou fotógrafo em Istambul. O primo vive o sonho burguês, é um artista. O rapaz que vem do campo tenta adaptar-se, encontrar trabalho, apaixonar-se. Nunca se encontrarão – vivem os dois numa cidade estranha, e a impressão de familiaridade que o fotógrafo tenta passar ao recém-chegado é falsa. Uma solidão verdadeira, germinando na distância da aldeia e do tempo de infância, nunca referido directamente. Neste aspecto, Istambul certamente não será diferente de qualquer outra cidade. Mas quando Yusuf, o recém-chegado, sai à rua num dia em que neva, percebemos a singularidade – um lugar de calor, onde o mediterrâneo chega; e a neve. O silêncio branco de Istambul sob um manto de neve, passageiro – raramente neva, e quando assim sucede, a neve desaparece ao fim de poucos dias -, Yusuf e a neve em fundo, o silêncio. E tudo nasce de um acaso aproveitado pelo realizador: começou a nevar, e as cenas tiveram de ser filmadas em poucos takes, aproveitando o momento, precário, tão fugaz como a sensação que uma sequência tocante de um filme deixa. A neve de Istambul regressará num filme posterior de Ceylan, Climas, compêndio do fim de uma relação, tratado da desagregação do amor. Quatro estações, quatro climas, e o mesmo casal, Istambul como a cidade onde em tempos a harmonia conjugal foi possível. Pensando com ponderação, os filmes do realizador turco mostram até que ponto as ideias que muita gente tem da Turquia são preconcebidas. A modernidade de Istambul, tão próxima do caos mediterrânico que nos define, é um certificado de garantia ameaçado – a entrada na União Europeia foi recusada por uma Europa, com a Alemanha à cabeça, que anda há décadas a tirar partido do trabalho dos imigrantes turcos. Uma Europa arrependida que chora umas incompreensíveis lágrimas de crocodilo provocadas pelos supostos malefícios do multiculturalismo. Será até pecado falar de política no mesmo parágrafo em que se evoca o olhar de Ceylan sobre Istambul; mas a cidade que podemos encontrar aproxima-se muito mais do seu olhar do que do preconceito desta Europa.
Há uma mulher istambulense por quem Yusuf se apaixona: lenço sobre a cabeça, tapando o pescoço e os cabelos, gabardine cinzenta ou creme iludindo as curvas, calças ou vestido comprido. Se é verdade que muitas mulheres se vestem assim, por tradição ou obrigação religiosa, a maioria recusa respeitar esse hábito. O esforço de laicização promovido por Atatürk, o pai da nação, deu os seus frutos, que a crescente influência da direita islamista não atenua. O niqab também é comum na cidade. Numa rua movimentada de Sultanahmet, um marido seguia e a sua mulher ia atrás dele. Um momento, e o marido entra numa loja. A mulher fica com uma criança pela mão, e os olhos, pintados, belíssimos, hesitam, procuram, vigiam. E ela sabe como foi olhada. O romantismo da história repete-se com muitos visitantes, mas a verdade é esta: usar o véu preto, da cabeça aos pés, é uma forma de tortura, inadmissível. E quando assim é, qualquer toada sentimental não tem desculpa. Os defeitos, raros ou não, obrigam-nos a gostar de outro modo dos lugares que visitamos, contrariedades de uma amante reticente. Não fazer uma leitura política da situação da mulher seria, no entanto, pior; o amor a uma cidade não tem nada de obrigatório e é totalitário. Cada sombra prejudica esse amor; inevitável. Seja como for, há outros pormenores relacionados com a política que não podem deixar de ser tidos em conta. O culto da personalidade em torno de Atatürk é visível por todo o lado, principalmente nos edifícios estatais. Também é o zelo que rodeia estes lugares que pertencem ao Estado. Não há um excesso visível de segurança; mas é verdade que a ameaça do terrorismo – laico, do PKK ou da extrema-esquerda, ou religioso, de fundamentalistas islâmicos – é real. Na semana anterior à minha chegada, acontecera mais um atentado nos arredores da cidade. A regularidade da tragédia certamente não afectará os locais, mas será difícil aos turistas não terem isso em mente ao passear pela cidade, desse modo cumprindo-se o principal objectivo de quem escolhe a via do terror.
Mas não nos podemos esquecer da História da cidade, da sequência ininterrupta de conflitos até à estabilização conseguida no século passado. Das glórias do Império Bizantino ao esplendor dos otomanos é uma curta distância, de séculos ou de metros. Frente a frente, dois símbolos de poder enfrentam-se, a Hagia Sofia e a Mesquita Azul, uma das maiores construções cristãs durante a Idade Média e a maior mesquita do mundo até há pouco tempo. Quando entramos na antiga catedral, as duas culturas emaranham-se, criando uma impressão de coincidência temporal entre os dois mundos inimigos. Os frescos bizantinos, nas paredes e na cúpula, transformaram-se em vestígio, memória de outra época, motivo de fotografias tiradas por excursões que param à porta do edifício. Por baixo das cúpulas, no centro, ergue-se outra ruína, o do antigo camarote usado pelo sultão depois da conquista otomana. Saímos da catedral e, dispostas como se fossem uma colmeia em redor de uma das alas, várias construções usadas ao longo dos quinhentos anos de dominação islâmica para adoração dos sultões e outros membros da família real. Entramos, e descalços, caminhando sobre tapetes olhamos o lugar dos mortos. Estamos longe do silêncio dos cemitérios ocidentais; e os cemitérios espalhados pela cidade, pequenos e barulhentos, serão também diferentes, mais próximos do espírito da pedra, do frio do mármore cristão. Se caminharmos um pouco mais e atravessarmos a praça cruzada por vagas de turistas, chegamos à Mesquita Azul, imponente na sua austeridade – não será uma contradição, as mesquitas são por definição, sóbrias, despojadas do rococó das grandes catedrais católicas. Claro que esta sobriedade não recusa a decoração – mas sem imagens, proibidas pelo Corão; e as paredes e cúpula em tons de azul da Mesquita suspendem-nos no silêncio; literalmente – o espaço vazio obriga – é esse o termo – à prece, à devoção a Deus. As regras da mesquita separam as mulheres dos homens, já sabemos. Mas quem reza, de joelhos no chão, recusa qualquer facilidade na sua crença. Quem está acima da massa de corpos em prostração, o imã incitando à oração – e, em tempos, o sultão e a sua família - é o mensageiro de Deus, que através da palavra comanda os fiéis. A excepção à ausência de hierarquia.
O bairro de Sultanhamet, enxameado de turistas, estrangeiros e turcos, é um paraíso também para quem pretenda fazer o circuito habitual de compras – os bazares e as ruas temáticas – a das livrarias, por exemplo, tradicionais, exibindo um aspecto ultrapassado que nada tem a ver com o chique moderno dos espaços de lazer ocidentais. Há espaços assim, claro, mas mesmo aí podemos encontrar resquícios de uma proximidade que já não existe por cá. A livraria onde entrei, procurando um livro de gravuras de Melling, o francês que viveu na corte do Sultão no século XIX, é um espaço vocacionado para quem não é da cidade, com a sua interessante oferta de livros sobre a Turquia ou de autores turcos em inglês e francês. A funcionária que me deu atenção, simpática e disponível, logo se apressou a sugerir-me autores turcos, um gesto que eu achei uma excepção ao comum. Acabei por levar comigo o tal autor turco, Irfan Orga, que se veio a revelar um escritor distante do brilhantismo de Pamuk. Para cúmulo, vim a descobrir ser o número habitual de tal empregada junto dos turistas. Contaria esta história mais tarde a um conhecido que visitara várias vezes a cidade e ele confirmou-me a trapaça. A surpresa será mínima, como também é a familiaridade dos vendedores de tapetes com as mulheres ocidentais. A verdade de muitos clichés é evidente: sim, convém regatear nos bazares porque se pode comprar pechinchas a menos de metade do preço pedido inicialmente (se decidirmos regatear, ter sempre presente o sketch de A Vida de Brian, dos Monthy Python, a grande referência na matéria). O Grande Bazar é como uma memória de uma vida que já não existe no nosso mundo – a troca comercial não é diferente do que era há mil anos atrás; os centros comerciais de Istambul estão desterrados na periferia, a uma distância relativamente curta com o auxílio do eficaz sistema de transportes da cidade. Longe do coração da cidade, alimentado pelo permanente vaivém de pessoas entrando e saindo das lojas de tudo e qualquer coisa mais. Os vendedores na rua também não foram repelidos pelo sistema – continua-se a traficar todo o tipo de comida nas ruas sem medo de contaminações ou de fiscais da inspecção sanitária prontos a vigiar vícios e pecados. E ainda se fuma, fuma-se a sério, acompanhando um chá, sentados num banco da rua, ou num barco a caminho da Ásia. Atravessamos a ponte de Galata, a ponte dos pescadores que, dia e noite, ocupam os passeios que ladeiam a estrada por onde taxistas enraivecidos aceleram, e chegamos à noite de Istambul.
Subindo em direcção à Istiklal, a cidade do outro lado do Corno de Ouro é uma visão de outro mundo; estranhamente, ainda me lembro de Veneza ao olhar para aquela Istambul. Não, na verdade não é um facto estranho – no museu de arte contemporânea, uma exposição sobre as duas cidades é anunciada por um cartaz que mostra uma metrópole imaginária, uma quimera maravilhosa na qual coexistem a Praça de São Marcos e Taksim, e os canais de Veneza se transformam nos rios marítimos de Istambul. A imagem falsa, manipulada pelo Photoshop, acaba por se aproximar da imagem da minha memória das duas cidades. Não é uma fraqueza, contudo; é uma manipulação da minha vontade. No ano em que visitei as duas, interessa-me que haja ruas que se confundem, certezas que não sejam absolutas, preconceitos na margem estreita da realidade. Veneza será a mais oriental das urbes europeias e Istambul a mais ocidental das asiáticas. Será apenas natural que a confusão exista.
Beber raki no ponto mais alto, a torre Galata, não é um luxo que se possa dispensar, até porque é possível fazê-lo por preços mais ou menos acessíveis. A toda a volta, o monstro estende o seu corpo. O Bósforo a perder de vista, em direcção ao Mar Negro, e um fundo de mar a caminho do mediterrâneo. Será mais fácil descer do que subir, dizem, mas não depois da embriaguez ter feito o seu curso. Mas agora, reencontro na memória as notas que não tirei – uma vez mais, o bloco voltou na mala quase em branco. E não foi nesse dia da torre que decidi começar a noite num bar, petiscando fast food oriental, bebendo e conversando. E a noite que entregou os passeios do dia ao esquecimento terminou num complexo de quatro andares com música inclusa. Não sei por onde andava Pamuk, nem as suas memórias de uma cidade que em tempos pertenceu ao pais e aos tios, às avós. A cidade das decrépitas casa de madeira na margem do Bósforo, dos poetas tristes e dos historiadores do quotidiano que nunca chegaram a terminar o trabalho começado em vida. Não havia tristeza no corpo daquelas mulheres dançando na discoteca ao som de hits russos e americanos. Nem medo, nem tradição. Um assomo de liberdade, de alegria. Prefiro aquela dança ocidental acesa no corpo das mulheres orientais à dança tradicional dos sufis encenada para as turistas e, desconfio, já muito pouco sentida. As ruínas das casas de madeira, companheiras de todos os passeios dados, são uma sombra de que as novas gerações não se querem lembrar. A injustiça de ver associado tal país, que consegue conciliar uma história antiga com hábitos modernos, a um preconceito – ainda recentemente se lamentava na Alemanha, motor de uma União Europeia coxa, o multiculturalismo do país, alimentado em grande parte pelos imigrantes turcos -, é evidente; não parece haver qualquer tristeza em abraçar a cultura ocidental. E os velhos, um dia, deixaram de ditar as suas leis.
O livro que não levei no bolso não me contou histórias que eu acabei por descobrir. Não há qualquer surpresa nisto – os livros servem tanto para ensinar como para esquecer. A Istambul de Pamuk, tão próxima da Lisboa de Fernando Pessoa, não existe. As duas não existem, o passado é apenas uma boa história. Os livros precisam mais de nós que nós que nós deles. E a neve de Ceylan, como a de Pamuk, continuará a ser um esforço da imaginação, uma ideia.

(Texto publicado inicialmente na revista Alice.)

11/03/11

10/03/11

One will burn

Tudo muda

Fiz uma pausa, que se deveu sobretudo a razões. Parei de ler a aventura do editor Riba, que ainda andava às voltas com a imaginária viagem a Dublin. O livrinho que se intrometeu é uma brincadeira séria, a tal pausa. Entre ziguezagues e reviravoltas, algumas imagens. E Vila-Matas ainda esperando, porque sim. Ficam uns versos:

Well existence what does it matter
I exist in the best terms I can
The past is now part of my future
The present is well out of hand

04/03/11

Blue Valentine

A maior parte das vezes, o melhor cinema americano não vem de Hollywood.
(Ou se vem, vem de uma off-Hollywood, de que os irmãos produtores Weinstein são um dos melhores exemplos).